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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Sobre a música mais linda do mundo

 

Vambora

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da Noite Veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na Cinza das Horas

 

            A canção de Adriana Calcanhoto é a música mais linda do mundo. Um poema musicado como poucos feitos nessa galáxia. Desculpem-me pelo eufemismos, mas para mim, poucas coisas se comparam.


            A música, é a arte mais multifacetada e democrática que existe. Desde os ancestrais mais longinquos, o som já se fazia. E conforme as eras passaram, chegamos as músicas que temos hoje, que são mais curtas e com o refrão, que é onde se tenta colocar a síntese da canção.


            Conheci esse universo chamado Vambora ainda na pré-adolescência, mas como estava aprendendo a tocar violão, essa música me tocou pelo ritmo e principalmente por ser diferente das outras canções do período, e prontamente a aprendi. Ouvi-la é como entrar em uma máquina do tempo e voltar ao ser ainda em formação. É um abraço no menino que escrevia quando sentia cousas que não conseguia dizer.

 

            Perdão, gosto de divagar. Pois bem, voltemos para melhor canção do mundo. Voltando...

            ... O desespero do eu-lírico pelo retorno da pessoa amada, que já esteve presente e por lá não está mais. A intimidade ao usar Vambora, palavra que contrai a expressão “vamos embora”. O tempo que se esvai que é levado pela espera “que o que você demora É o que tempo leva” (essa frase, para mim, é a mais linda da música).


            As lembranças que habitam em todo o canto “ainda tem o seu perfume pela casa” a presença suprassensível “ainda tem você na sala”.


            O descompasso físico, a saudade ecoando no peito “porque meu coração dispara” ao sentir a essência da pessoa amada “quando tem o seu cheiro” ao pegar um livro que traz a lembrança, “dentro de um livro Dentro da noite veloz” e “Nas cinzas das horas”.


            Adriana disse que viu esses livros na sua estante e que eles não possuem relação direta com a música. Dentro da noite veloz, de Ferreira Goulart aborda temas como a brevidade do tempo, e casa com o as primeiras estrofes do poema musicado e Nas cinza das horas, que seu nome é A cinza das horas de Manuel Bandeira, é carregado de poesias com tom mórbido, devido a doença que o acometia. O eu-lírico vive o ato de morrer conforme escreve a sua desolação.


            Tanto o concretismo de Goulart, quanto no Parnasianismo de Bandeira, temos um diálogo com a canção de Adriana. Podemos comparar a morbidez que esmora no clamor pelo retorno da pessoa amada com A cinza da horas, bem como a aflição da “morte em vida” devido também essa ausência que se acabaria ao ser atendido o “vem, vambora!”. O ritmo, lento, juntamente com acordes fortes, passam a intensidade da dor, e, como ele demora para passar. As estrofes cantadas neste ritmo também evidenciam o cansaço pela espera.


            Toda essa preciosidade mora dentro de um período em 05m:02s na versão ao vivo, onde são apenas Adriana e o violão, que potencializa a visão triste de solidão.

            

            Adriana sintetiza o sentimento de nostalgia, amor, tristeza e agonia pelo ser amado de forma magistral. Com isso, concluo esse breve texto, que é uma forma de agradecer por tudo que Vambora reverbera dentro de mim.