Vambora
Entre
por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
Ainda
tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da Noite Veloz
Ainda
tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na Cinza das Horas
A canção de Adriana Calcanhoto é a
música mais linda do mundo. Um poema musicado como poucos feitos nessa galáxia.
Desculpem-me pelo eufemismos, mas para mim, poucas coisas se comparam.
A música, é a arte mais
multifacetada e democrática que existe. Desde os ancestrais mais longinquos, o
som já se fazia. E conforme as eras passaram, chegamos as músicas que temos
hoje, que são mais curtas e com o refrão, que é onde se tenta colocar a síntese
da canção.
Conheci esse universo chamado
Vambora ainda na pré-adolescência, mas como estava aprendendo a tocar violão,
essa música me tocou pelo ritmo e principalmente por ser diferente das outras
canções do período, e prontamente a aprendi. Ouvi-la é como entrar em uma
máquina do tempo e voltar ao ser ainda em formação. É um abraço no menino que
escrevia quando sentia cousas que não conseguia dizer.
Perdão, gosto de divagar. Pois bem,
voltemos para melhor canção do mundo. Voltando...
... O desespero do eu-lírico pelo
retorno da pessoa amada, que já esteve presente e por lá não está mais. A
intimidade ao usar Vambora, palavra que contrai a expressão “vamos embora”. O
tempo que se esvai que é levado pela espera “que o que você demora É o que
tempo leva” (essa frase, para mim, é a mais linda da música).
As lembranças que habitam em todo o
canto “ainda tem o seu perfume pela casa” a presença suprassensível “ainda tem
você na sala”.
O descompasso físico, a saudade
ecoando no peito “porque meu coração dispara” ao sentir a essência da pessoa
amada “quando tem o seu cheiro” ao pegar um livro que traz a lembrança, “dentro
de um livro Dentro da noite veloz” e “Nas cinzas das horas”.
Adriana disse que viu esses livros
na sua estante e que eles não possuem relação direta com a música. Dentro da
noite veloz, de Ferreira Goulart aborda temas como a brevidade do tempo, e casa
com o as primeiras estrofes do poema musicado e Nas cinza das horas, que seu
nome é A cinza das horas de Manuel Bandeira, é carregado de poesias com tom
mórbido, devido a doença que o acometia. O eu-lírico vive o ato de morrer
conforme escreve a sua desolação.
Tanto o concretismo de Goulart, quanto
no Parnasianismo de Bandeira, temos um diálogo com a canção de Adriana. Podemos
comparar a morbidez que esmora no clamor pelo retorno da pessoa amada com A
cinza da horas, bem como a aflição da “morte em vida” devido também essa
ausência que se acabaria ao ser atendido o “vem, vambora!”.
Toda essa preciosidade mora dentro
de um período em 05m:02s na versão ao vivo, onde são apenas Adriana e o violão,
que potencializa a visão triste de solidão.
Adriana sintetiza o sentimento de
nostalgia, amor, tristeza e agonia pelo ser amado de forma magistral. Com isso,
concluo esse breve texto, que é uma forma de agradecer por tudo que Vambora
reverbera dentro de mim.